Domingo, 24 de Outubro de 2021

Livro à procura de autor, 11

Capitulo quarto

Quando Daniel abriu os olhos encarou Mariana que lhe esfregava o corpo.

- Que está a fazer?

- Limpo-o do pó.

- Chamou alguém?

- Não.

- Como conseguiu trazer-me para aqui?

- Levantando-o, como quem levanta uma pena.

- Diga a verdade. Por que está aqui? Que horas são?

- Quatro da manhã.

- Quatro da madrugada...e a senhora aqui?

- Estava a passar perto da fábrica quando vi luz no seu gabinete. De repente senti que tinha acontecido algo de estranho porque o senhor parecia voar. desliguei os alarmes. Entrei pela porta privada. Subi rapidamente e encontrei-o coberto deste esquisitíssimo pó. O gabinete está sem um único quadro, móvel ou tapetes. Tudo desapareceu.

- Como vim parar à marquesa do gabinete médico?

Quando fiz a primeira limpeza, olhei para o senhor e de opaco e rijo só tinha o sexo.

Olhei-o espantada. Através do seu corpo, da sua cabeça, pernas, pés e braços, via o mármore róseo que cobre o chão. Temi que o senhor só fosse espírito. Toquei na parte que me pareceu mais sólida.

- Mariana...

- Tenho de ser sincera. No resto do corpo dava-me a impressão, caso lhe mexesse, que o atravessava de lado a lado. Depois, tirei-lhe o pó que o cobria. Ao tentar levantá-lo, apercebi-me que não tinha peso.

- Mariana.

- Agarrei-o com todo o cuidado e transportei-o para aqui.

- E não chamou ninguém? Alguém sabe do sucedido?

- Não. Uma voz estranha, mas que parecia já ter ouvido sussurrava-me: "agarra-o e leva-o daqui". Foi o que fiz.

- E conseguiu... colocar-me assim, sem qualquer esforço?

- Bem, sem esforço também não foi.

- Está a esconder-me alguma coisa.

- A verdade é que ao chegar a este gabinete, eu que o transportava nos braços, como quem transporta um boneco, ganhou muito peso.

Caí e fiquei com o senhor em cima de mim, uns bons vinte minutos. Senti-me bem.

Coloque a máscara. A vida traz-nos surpresas inacreditáveis. Tanto dá como tira. “É a vida!” como dizia António Guterres, Secretário-Geral da ONU.

 

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C.S

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Sábado, 23 de Outubro de 2021

Livro à procura de autor, 10

Daniel sentiu um ar gelado percorrer-lhe as faces. Instintivamente, seguiu essa sensação e viu aterrado a moldura da filha ser projetada a alguns metros de distância desfazer-se no chão.

Daniel compreendeu que não devia insistir com os amigos.

Entrou pela noite sem fome, sono ou cansaço. Naquele momento, tinha a certeza que era urgente contactá-los.

Daniel reconhece que contra os Espíritos a sua força não existe, mas a sua teimosia é maior que o seu discernimento. Insiste:

Olavo: “Octávio encarnou em ti, foi através do teu corpo que a revelação nos iluminou. Tu és a minha derradeira esperança. Imploro-te que me respondas. Sempre foste magnânimo. Sempre te admirei. Estimo o povo de onde foste originário. Tu eras o meu Deus do norte. Acreditei mais em ti do que em Deus.”

Daniel não conseguiu dizer mais nada; rapidamente sentiu os efeitos da blasfémia: à sua volta tudo começou a inchar como se os objetos ganhassem vida e crescessem impiedosa e monstruosamente. Pensou que estava a ficar louco ou que a fome e o cansaço o estivessem a perturbar. Os sapatos, a gravata, o fato, a camisa, apertavam-lhe todo o corpo. As paredes tornaram-se cada vez maiores. De repente, um estoiro surdo, quase inaudível, reduziu todos os objetos a pó. A roupa volatilizou-se e ele, inconsciente, ficou estendido no mármore do sumptuoso gabinete de onde o tapete de Arraiolos tinha desaparecido, enquanto todas as partículas de matéria desfeita o cobriam, tal como a terra cobre os corpos nas campas dos cemitérios.

Fim do terceiro Capítulo. CONT.

Coloque a máscara. O perigo ainda não desapareceu. Pior que os vírus são as greves.

Os demagogos e os ignorantes ainda não compreenderam que ao deitar dinheiro fora, o Governo não pode fazer aumentos. Quando os faz a dívida cresce. Ela é a terceira maior da U.E a seguir à Grécia e à Itália.

 

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C.S

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Sexta-feira, 22 de Outubro de 2021

Livro à procura de autor, 9

Dirigiu-se a Karl.

“Karl, para ti só o real e o concreto contaram. Ou tu não fosses Alemão. O trabalho obcecava-te. Só te esquecias dele quando apanhavas bebedeiras monumentais. Nesses momentos davas largas às tuas envergonhadas alegrias.

Sabes que não sou um fraco... Tive uma hesitação durante um milésimo de segundo... estou cheio de remorsos, querendo desaparecer e viver convosco. Diz que me ouves.”

O tempo passou. Daniel desesperado voltou-se, outra vez, para Jânio.

“Jânio, tu és da minha idade. Vivemos no Brasil o que é possível viver de felicidade neste mundo. Sei que deves estar ofendido com a minha lassidão, a minha inacreditável cobardia.

Os brasileiros são os únicos seres à face da terra que compreendem as fraquezas e sabem tirar todo o prazer da vida. Contigo, eu soube que isso é verdade. Pelo tempo que passámos no Rio, em S. Paulo, em Brasília, em tantos outros lugares de norte a sul do Brasil, eu te peço que me oiças, que me perdoes e sirvas de união entre mim e todos os nossos companheiros.”

Daniel não obteve resposta. A noite entrava, no rosto do riquíssimo industrial. Exausto, sem comer nem beber, continuou a saga, intervalando os seus pedidos e as suas concentrações com estranhos espaços vazios de pensamento. O seu cérebro funcionava como uma lâmpada prestes a fundir-se. A corrente da consciência ligava e desligava automaticamente mas, a reminiscência do que pretendia fazer, levava-o sempre à ideia inicial.

“Racine, meu querido amigo, os nossos negócios atingiram todos os limites. Sempre considerei Paris a cidade do conhecimento, do saber, da cultura. A minha admiração por ti foi sempre muito grande. É a primeira vez que te peço ajuda. Não negues este pedido a um condenado à vida.

Os minutos passavam, os suores invadiam Daniel. Mas habituado a lutar muito e a resolver os seus insucessos pela insistência, pela teimosia e pela persistência, sabia que tinha de continuar.

Na fábrica, só ele e os dois guardas da noite.

Havia câmaras e alarmes que detetavam o mínimo movimento.

Daniel invocou Hernandez.

“Hernandez, também eu nasci na península. Fomos os que mais nos visitámos. Na época, vivia a maior parte do tempo em Cascais, tu ias passar férias a minha casa. Cavalgámos pelas dunas do Guincho. Lembras-te? A Madrid, eu ia menos vezes, mas sabes quanto admiro Espanha. Depois, peregrinos do mundo, como é nosso destino, afastámo-nos. Neste momento, apelo à nossa antiga amizade. Por tudo quanto realizámos juntos, concede-me um ou dois minutos de atenção. Eu necessito saber onde vos encontrais e como vos hei de contactar.”

Coloque a máscara. Não desista. Comece por escrever sobre a sua vida, para ganhar mão. Eu só vou escrever mais 4 ou 5 Capítulos, depois é você que o vai continuar se quiser salvar os Reformados com menos de 400 Euros e o País. Envia-me a sua ideia e eu trabalho-a. O trabalho tem de ser coletivo.

O Governo, seja ele qual for, tem de ser ajudado.

 

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C.S

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Quinta-feira, 21 de Outubro de 2021

Livro à procura de autor, 8

CAPÍTULO TERCEIRO 

Quando a secretária chegou viu que Daniel não estava bem.

- Precisa de alguma coisa, Sr. Daniel.

- Não preciso de nada. Preciso de ficar sozinho - respondeu o industrial.

Mariana olhou-o surpresa.

- Tem várias entrevistas marcadas a partir das nove da manhã.

- Cancele. Não estou para ninguém.

- E os seus amigos?

Daniel teve um sobressalto.

- Não estou para ninguém. Pode sair.

Mariana estava espantada. Daniel nunca tinha procedido assim. Sentiu que tinha fechado a porta à chave, o que também nunca acontecera. “Que esquisito." Pensou.

Daniel mergulhou os olhos no Tejo, esqueceu as refeições. Ficou horas sem um único pensamento. A corrente da consciência tinha parado? Já a tarde se fazia noite quando se lembrou do fato que trazia vestido.

“Com este fato não me sinto bem. Estou vazio. Que raio de ideia de vestir também as cuecas!

Há quatro anos, um quiromante previu que iria vestir a pele de outro homem e que os meus sofrimentos e alegrias seriam tantos e tais que eu teria um fim trágico.

Que estúpida distração a de continuar com este fato.

Daniel olhou uma fotografia com todos os seus sócios e amigos.

“Será que me perdoaram?”

Passou diversas vezes a mão direita sobre a fotografia, para ter a perceção dos corpos. Apertou o fato bem a si, fixou os olhos em Jânio.

Num tremendo esforço de concentração, chamou:

“Jânio, meu bom amigo, a tua bondade nunca faltou a quem necessitava das tuas palavras ou do teu património. Preciso de um intermediário para me explicar.”

Uma brisa, muito leve e muitíssimo fria passou-lhe pela face. Daniel, pensou ter encontrado o interlocutor que procurava. Preparava-se para falar quando o quadro com a fotografia do filho mais novo se soltou da parede e se desfez no mármore.

Daniel compreendeu que além de Jânio não o querer ouvir, lhe demonstrava a sua repugnância por quem faltava às promessas.

Coloque a máscara. O mundo está doente. Bastou um vírus, sem peso, para eliminar quatro milhões e seiscentos mil seres humanos. Proteja-se. Leia, escreva. trabalhe; e não há vírus que vençam a sua vontade, tenha você 20 ou 100 anos.

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C.S

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Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021

Livro à procura de autor, 7

Acabadas estas palavras, ouviu-se uma tosse desagradável. Octávio elevou-se de Olavo. Pairou sobre o túmulo e desapareceu.

- Que fazemos? Perguntou Karl.

Akio respondeu.

- Tivemos tudo na vida. Pelo dinheiro esquecemo-nos de viver.

Antes de invocar Octávio, chegámos à conclusão que fomos os escravos muito ricos de um mundo que ainda não se entendeu. Os descendentes  preferem o prazer imediato e perigoso.

- Tens razão.- Disse Francesco. Nós vivemos para o dinheiro e pelo dinheiro, eles gastam-se nos prazeres fracturantes. Esta pandemia é um sinal de alarme.

- Certo!- Acrescentou Pedro.- Fomos escravos do dinheiro para proteção da família. Nem sempre valeu a pena.

O dinheiro envergonha-os.

Aristóteles, no século IV antes de Cristo (a.C) ao fazer a diferença entre cultos e incultos, não hesitou em afirmar que é a mesma diferença que há entre os vivos e os mortos.

- Os filhos, em vez de compreenderem os sacrifícios, criticam-nos o trabalho e as noites perdidas.

- Tal como nós nos unimos pelo dinheiro, eles unem-se pelo sonho.

Vivem as orgias e os desafios do mundo. Nós trabalhámos o estrume e aproveitámos o líquido que nos deu dinheiro, nos compensou pelo esforço, mas nunca nos deu felicidade. Recordou Racine.

- Estou desiludido com este Mundo. - Disse Akio - Cheguei à conclusão, que embora o trabalho me tenha dado muito prazer, me esqueci da solidariedade.

Se não fosse coisa de velho propunha que façamos aquilo que várias vezes já falámos e que o aparecimento de Octávio confirmou. Tal como fizemos aparecer Octávio, podemo-nos fazer desaparecer a nós próprios.

- Como procedemos? - Perguntou Edwin.

- Temos de saber quem deseja entrar na outra dimensão?

Todos responderam afirmativamente.

- Para tentar a autodestruição, teremos de pensar a melhor recordação desta vida. Em seguida, concentramos toda a energia para que o pensamento atue segundo a nossa vontade.

Todos compreenderam a ideia?

Basta pensar na autodestruição do corpo e fazer a invocação.

Influenciados pela rápida sequência das palavras de Akio, todos aceitámos a proposta.

Façamos uma pequena pausa. Concentremo-nos sobre esta vida,

Deixemos uma recordação para o infinito, despidos de egoísmos.

Depois de alguns minutos em silêncio, abraçámo-nos.  

Ao redor do túmulo, erguemos as mãos para o Céu, e implorámos sete vezes:

"Que o meu pensamento destrua o meu corpo. Que ele se transforme em luz e entre no Espírito Universal!" E voltámos a repetir - "Que o meu pensamento destrua o meu corpo. Que ele se transforme em pó e entre no Espírito Universal!"

À sétima vez, a concentração era tão forte que o latejar das têmporas nos abafava as vozes. Em segundos Akio desfez-se. A sua aura desapareceu no infinito. Um a um, todos foram desaparecendo. Quando chegou a minha vez só me lembro que o terror me prendeu a vontade e gritei desesperado Nãaaaaaaaaoooo!!!

CONT no Terceiro Capítulo

Coloque a máscara.

 Com passinhos leves entra uma personagem de tragédia e de sonho.

Como vamos encontrar um autor e um editor para o livro e oferecer isso ao Governo para ele fazer um cofre para os Reformados com reformas abaixo de quatrocentos €uros?

Só coloco mais 4 ou 5 Capítulos para incentivar a escrever e a ler. Se vir que falhei nesta ideia... tenho de encontrar outra.Um Português nunca desiste.

 

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C.S

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Terça-feira, 19 de Outubro de 2021

Livro à`procura de autor, 6

Concentremo-nos."

A um gesto seu, todos invocámos:

"Octávio, os teus amigos precisam de ti. Os espíritos atuam como guias dos seres que continuam na terra: rogamos-te que dês sinal da tua presença."

Depois de sete invocações, as entranhas da terra começaram a arfar.

Do vértice do túmulo saiu uma ténue silhueta, mistura de fumo, cor e cinza, que ficou entre nós.

Todas as outras campas se iluminaram. Ficámos envolvidos por vapores.

- Bem-vindo Octávio. Disse Karin.

De entre os companheiros aqui presentes escolhe um em que possas encarnar.

Vou pedir-te para responderes a algumas perguntas tal como há anos combinámos, desde que um de nós entrasse no mundo dos espíritos.

Recordo-te os companheiros: Karl da Alemanha, Akio do Japão, Patrick da Inglaterra, Francesco da Itália, Jânio do Brasil, Hernandez de Espanha, Daniel de Portugal, Racine de França, Hassan da Arábia Saudita, Olavo da Suécia, Edwin dos Estados Unidos da América e Karin da Índia.

Para conhecermos a tua vontade, pedimos que te dirijas a quem desejes encarnar.

O fluido de Octávio tomou o corpo de Olavo.

Karin voltou-se para ele.

- Nunca duvidámos que a vida continuasse para além deste mundo.

Durante muitos anos debatemos este assunto. Fomos a Congressos onde esclarecemos dúvidas. Associámos as empresas. Fizemos um pacto jurando que o primeiro a partir voltaria ao local onde o corpo tinha ficado. Todos cumprimos. Este é o momento de partir, de nos reunirmos para podermos preparar o regresso. Como devemos proceder?

Os olhos de Olavo ganharam brilho. A voz tornou-se rouca.

- O ser humano necessita de meditações sucessivas para eliminar restos de irracionalidade.

A minha vida na terra não foi exemplar. Vocês conhecem os meus e os vossos exageros. Incarnado no corpo de Olavo sei que ainda não aprendi o suficiente para voltar a reentrar.

Compreenderão melhor, logo que nos encontremos neste espaço, que não ocupo, mas que sinto.

A existência tem duas memórias. Só uma é capaz de se materializar.

É muito confuso o que dizes. Vais-nos ajudar?

- Não posso.

- Sempre pensámos que nos pudesses aconselhar e proteger.

- Aos espíritos não se lhes deve pedir o que os humanos são capazes de fazer. Tudo está escrito no Universo. As entranhas da terra, o brilho dos astros e os fundos dos mares revelam todos os segredos porque enquanto vivos, a matéria de que somos formados tem como base a energia inicial e por isso o enorme poder do ser humano que ele ainda não sabe aproveitar corretamente continuando a sufocar o Universo com tóxicos de grande aquecimento.

CONT

Coloque a máscara. Seja previdente. A gripe anda aí. O Covid segue-lhe as pisadas.

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C.S

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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021

Livro à procura de autor, 5

SEGUNDO CAPÍTULO

No escritório, Daniel recordou a noite anterior

Estávamos em pé, de braços estendidos sobre a campa de Octávio. Fazíamos a meditação preparatória para entrar no espaço de onde acreditávamos que tínhamos saído em feixes de luz, ligados uns aos outros e a tudo quanto existe.

Karin iniciou a cerimónia:

"Foram muitos os trabalhos por que passámos.

Unidos pela amizade soubemos ultrapassar as dificuldades. Mas sabemos que não conseguimos vencer a morte.

Este mundo só tem de válido a amizade. O capital da amizade rende incalculáveis dividendos. Chegámos a esta posição porque utilizámos a nossa amizade, as nossas capacidades e os nossos conhecimentos.

Ao tentarmos este contacto com Octávio, para nos desligarmos deste mundo teremos de nos desprender de todos os sonhos, de todas as vontades e ter a coragem suficiente para entrar no Pensamento Universal de onde tudo o que existe saiu ao mesmo tempo em forma de luz.

Vamos mergulhar no infinito e regressar ao átomo inicial.

Transparentes, felizes e lúcidos ficaremos gravitando pelos Céus dezenas ou centenas de milhares de anos até voltarmos à encarnação.

As energias cósmicas tornaram-nos homens poderosos, mas insatisfeitos.

Com a morte física de Octávio a união fragilizou-se. Já nada nos dá prazer.

Usufruímos tudo quanto esta vida nos pode dar.

Para entrarmos na outra dimensão, temos de o fazer na primeira noite de lua cheia, só assim essa força nos envolverá e levará para o infinito que nasceu e aumenta desde há mais de catorze mil milhões de anos."

O silêncio, o cemitério iluminado pela lua, as nuvens de vapor que subiam das sepulturas faziam do local um cenário belo e macabro.

Karin continuou:

"É necessário dirigir as ondas mentais para o infinito onde se encontra o Espírito de Octávio.

Nenhum de nós pode temer algo do que acontecer. O receio, em qualquer dos momentos desta comunicação, desligá-lo-á imediatamente da corrente de que somos os elos. A hesitação ou o medo implicará o caos, a confusão e o tormento enquanto viver. 

Fomos firmes, audaciosos e crentes em tudo aquilo que fizemos. Vencemos o desafio da vida. Venceremos o desafio da morte, morrendo para a vida terrena

As nossas mentes são centrais de energia muito potentes.

Coloque a máscara. Até ao final do Inverno temos a gripe. O Covid teima em passar férias em Portugal.

 

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C.S

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Domingo, 17 de Outubro de 2021

Livro à procura de autor, 4

- Não esqueço, não senhor. Eu sei que é um dos homens mais ricos de Portugal. Nem sei mesmo, se do mundo. Devia ter tento na língua, mas que quer? Depois de quinze anos em coveiro, não consigo ver ninguém na vertical: é tudo deitadinho. Pobres, ricos, multimilionários, miseráveis não resistem ao Samarra. E, se passados alguns anos, os visse desfeitos e escorridos, como eu os vejo, o senhor compreendia o meu jeito de falar. Não valemos nada.

- Você fala demais. Mas ainda não contou o essencial: tirou-lhe o fato.

- Tirar, tirar, não foi bem assim. Como a urna estava almofadada vi que ele até se sentia mal. Ali dentro devia fazer um calor dos infernos; desapertei-lhe o colarinho, tirei-lhe a gravata e até pareceu ganhar cor. Depois, enchi-me de coragem e perguntei-lhe: quer também que lhe dispa o fato? Ele não respondeu e fiz o que o senhor já sabe. Saiu tudo, até as cuecas que o senhor leva com o preço do fato: são de seda, assim como a camisa. Foi a minha que m'o disse.

- E lavou as peças?

- Para quê, senhor Daniel? Para quê? O senhor Octávio estava limpíssimo! Cheire, ora cheire.

- Deixe-se de parvoíces, homem!

- Com este perfume devia ter levado mais algum. Isto é perfume Louis Féraud.

- Onde eu caí!

- Estava junto do túmulo do senhor Octávio, posso jurar.

- Não diga isso a ninguém. Você não tem escrúpulos?

- Tenho sim. Guardei religiosamente todo o enxoval.

- Espero que isto fique entre nós.

- Pode ficar descansado, logo que entregar os três mil e quinhentos dólares, o assunto morre aqui. Eu sou um túmulo.

- Você é o diabo.

FIM do Primeiro Capítulo.

Coloque a máscara. Evita a gripe, não se deixe contaminar e ganha coragem para o Segundo Capítulo.

Ler e escrever mantém a saúde mental. Comece a escrever a história da sua vida. Se puder trabalhar, trabalhe. O País precisa de si.

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C.S

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Sábado, 16 de Outubro de 2021

Livro à procuea de autor, 3

- Se quiser empresto-lhe o meu fato de trabalho. Não paga nada. É de graça. Não quero ver ninguém chorar dinheiro. Sou pobre, mas não sou indigente. Vou-lhe emprestar o fato.

- Não quero! Eu fico com o fato, mas continuo a pensar que isto é um roubo.

- Pense o que quiser. Pode escolher entre dois fatos. Um é de graça, o outro pouco representa para uma fortuna como a sua. Mas se a vontade é poupar, aqui tem o fato que visto, para carregar aqueles que não podem roubar a vida...

- Não são os três mil dólares que me preocupam. Aquilo que me chateia é ser roubado descaradamente.

- Eu não lhe roubo nada. Até lhe dou a possibilidade de uma escolha.

- Que escolha? O seu fato cheira à morte! Quase vomito só de o sentir.

- Cheiros. Ainda tenho outra solução.

- Qual é?

- Posso chamar-lhe o motorista.

- Nem pensar! Eu fico com o fato pelos três mil dólares.

- E paga-os?

- Você ofende-me!

- Desculpe. Tenho levado tantos pontapés que às vezes esqueço-me de que devo ter reverência. Foi o instinto. Saiu-me. Já não é a primeira vez que, quando precisam oferecem tudo, mas quando se apanham servidos nunca mais se lembram das promessas.

- Como é que pensa que arranjei a fortuna? Acha que foi a pagar tudo quanto me pedem? O negócio está feito. Não se fala mais no assunto.

- Morra quem se negue.

Daniel preparava-se para sair, mas voltou para junto do coveiro.

- Você não me chegou a dizer a quem pertence este fato, que foi comprado numa das melhores e mais elegantes lojas de Lisboa.

- A marca está lá.

- Devia ter pertencido a alguém muito rico. De quem era?

- Se quer saber, paga mais uma quinhenta.

- Ó Samarra, você é um escroque!

- Se não o tivesse recolhido, a estas horas estava a empacotá-lo: todo o seu dinheirão não lhe serviria para nada. Tenho a certeza que os filhos se encarregariam de o desbaratar bem mais rápido que o senhor pensa e ainda continua a chorar umas notas de alguns dólares.

- Devo-lhe então três mil e quinhentos dólares?

- Assim é que é falar. O senhor não fica mais pobre e ajuda o Samarra, a Clementina, a Mariana e o Tiago a irem para as Américas.

- De quem era o fato?

- Do senhor Octávio.

- Do Octávio! Que me havia de acontecer! E você guardou este fato...

- Durante muito tempo e sem naftalina. O cheiro suave atrai as pessoas e afasta as traças.

- Você  é que me saiu uma boa traça.

- Ando a poupar há anos. O senhor ganha num dia o que eu nunca ganharia em toda a vida. O meu dia de sorte tinha de chegar e chegou. É preciso saber esperar.

Quer um conselho, senhor Daniel?

- Diga lá! Já disse tantos disparates, mais um não fará grande diferença.

- Nunca tire a esperança a ninguém. Na essência somos todos iguais. Só que uns desistem logo à partida, mas há outros que podem nascer no mais miserável dos lamaçais e nunca se dão por vencidos. Não é justo que lhes tirem a esperança. E o senhor não é tão mau como parece. É vício.

- Vício?

- De explorar, de guardar, de ter mais e mais sem necessidade.

- Você não sabe o que é ter milhares de empregados e garantir-lhes o salário?

- As empresas são fontes…

- E quando secam. Quem paga aos operários?

- Homens como o senhor nunca deixam que isso aconteça.

- Não esperava encontrar um coveiro especialista em economia e de raciocínio rápido.

- Os nossos discretos companheiros ensinam aqueles que aprendem na escola da vida.

- Os mortos?

- Os livros.

Daniel olhou-o com simpatia.

- Quem lhe deu o fato?

- Bem, sabe, isto é...

- Deixe-se de evasivas. Você roubou o fato.

- Bem...a "minha" viu o fato e disse-me que era um fato daqueles que dava sorte...

- Desenterrou o Octávio e roubou-lho.

- Não foi bem assim.

- Não foi bem assim, como?! O fato estava no corpo do Octávio.

- Estar, estava, mas eu desenterrei o senhor Octávio para ver se ele se encontrava bem, assim como fiz com o senhor.

- Eu não estava enterrado!

- Esteve quase. Havia cotão por todo o lado. Ficamos por aqui.

- Não, não! Acabe o que estava a dizer sobre o Octávio.

- Eu tive a impressão que o senhor Octávio gemia dentro da campa. A terra tinha um aspeto esquisito; estava enrugada. Eu que me gabo de fazer obra asseada reparei que a terra se encontrava mexida. Ao cair da noite voltei aqui. Continuei a ouvir qualquer coisa que ainda hoje, quando me lembro, sinto um arrepio. Aquilo já não parecia de gente, mas ouvia-se. Enchi-me de coragem, agarrei na pá e abri a cova. Destapei, com muito cuidado, a tampa da urna. Mal empregada, valia um dinheirão. Só a tampa, em pau-santo, dava para eu ir para as Américas.

- Ó, homem, despache-se. Você não teve medo?

- Medo? Depois de sentir o primeiro arrepio pensei: se o homem está morto não me faz mal, e, se estiver vivo, ainda me agradece. Aí é que eu encontrava o meu pote de libras. Era a minha sorte grande.

- Mas o Octávio estava morto.

- Estar, estava. Mas não estava muito contente.

- Não estava muito contente?

- Ele devia ter tentado voltar-se.

- Depois de morto?

- Talvez. Garanto-lhe: ele não gostou. A cara era de quem não tinha achado graça por estar naquela situação.

- Você não diga isso a ninguém. Agora começo a lembrar-me do fato.

- Vai ver que o vai sentir. Ele ainda lhe vai dizer qualquer coisa.

- Sentir como?

- Esse fato era o dele. Teve-o vestido pelo menos vinte e quatro horas.

- Esteja calado. Não me lembre horrores.

- É o meu fato de sorte...o senhor leva-o... vai ver…ainda nos havemos de entender.

- Consigo?... Nem morto! E negócios... Nunca mais! Aviso-o ainda de uma coisa; não se esqueça da pessoa para quem está a falar.

CONT

Coloque a máscara.

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C.S

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Sexta-feira, 15 de Outubro de 2021

Livro à procuea de autor, 2

- Arranje-me um fato... Qualquer coisa que possa vestir.

- Infelizmente sou coveiro. Não sou alfaiate nem tenho um pronto-a-vestir.

- Lá está você, outra vez, com o infelizmente. Não vê o estado em que me encontro? Arranje-me um fato.

- Só se for desenterrar algum...

- Deixe-se de graças!

- Como queira, Sr. Daniel. Os passeios no cemitério são à borla, os fatos...pagam-se.

- Quem lhe disse que ficava a dever? Arranje o fato e deixe-se de brincar com assuntos sérios

- Sérios e bem sérios – Respondeu Samarra descontraidamente.

- Você tem mais jeito para o teatro do que para coveiro.

- Não é o que os mortos dizem.

- Dizem?

- Ainda nenhum reclamou. O senhor foi o primeiro.

- Eu não estou morto... ou estou?

Samarra riu com gosto.

- Felizmente não.

- Você está a gozar comigo e eu não sei porque lhe dou conversa.

- Nesse estado... e dentro do cemitério...

- Arranje-me o fato e tenha tento na língua. Você assim não vai longe.

- Ai vou, vou. Morrer coveiro é que eu não morro.

- Com essa linguagem não vai muito longe.

- Eu sei que não vou morrer coveiro. Decidi que sou homem como os outros. Nem o senhor, nem ninguém me tira a esperança.

- Se sabe quem eu sou escusa de mostrar altivez.

Samarra mudou de tom.

- Desculpe... estou habituado a falar com os mortos... O senhor era mais um... a gente perde a reverência.

Afinal somos todos iguais ao nascer e ao morrer. Eu de ver tanta gente importante levar com umas pazadas de terra nas trombas perdi o respeito a tanta cagança.

- Arranje-me um fato e não diga asneiras. Será recompensado.

- Tenho aí um que é coisa fina, o resto é tudo para gente como eu...

- Dê-me o mais limpo.

- Dê, é maneira de falar...

Samarra foi à desconjuntada cómoda.

- Aqui tem.

Daniel apalpou o pano.

- Boa fazenda, bom corte. Bom gosto. Feito no meu próprio alfaiate...não me diga que é o meu fato?

- Experimente-o.

- Parece feito por medida. Até a camisa é o meu número. Como é que um fato do “Lourenço & Santos” veio aqui parar?

- Bem, sabe, isto é...

- Diga lá, eu não lhe fico a dever o fato. Já vi que não é o meu.

- E paga em dólares?

- Em dólares? Você está doido! Em dólares? Onde é que já se viu isso? Estamos na Europa, homem! Euros, libras, francos! Agora em dólares!

- Pois é. Tem de ser em dólares.

- Posso saber porquê?

- Pode. Ando a juntar o meu pé-de-meia para emigrar. A minha mulher diz que os dólares é que valem, o resto é papel pintado. Eles fazem quantos querem e todos acreditam na máquina.

- Se a ideia é da sua mulher não ganho nada em discutir. E em quanto me fica isto?

- É barato. São três mil.

- Três mil escudos?

- Isso foi no século passado. Estamos na era do Euro, senhor Daniel, mas eu, antes de saber para onde vai o euro, prefiro dólares. Três mil dólares, senhor Daniel. Três mil escudos, convertidos em euros, já nem davam para umas cuecas quanto mais para um fato completo; camisa, gravata, cuecas, meias de seda e sapatos.

- Isto é um roubo!

- Quanto mais ricos, mais sovinas.

- O que é que você disse?

- Nada, nada. Eu sou um brutinho, não sei falar direito.

- Espere lá. Trezentos dólares.

- Três mil e é a última palavra. Com ele até pareço um doutor.

- Explorador é aquilo que você é.

- Eu não quero que fique mal impressionado. A gente nunca sabe se algum dia precisa… O senhor é homem de cacau, mas...

- Diga! Diga lá ...

- Não vale a pena. A minha mulher é que tem razão.

- E o que diz a sua mulher?

- Que eu falo demais. Que sou uma besta.

- Exijo que me diga o que é o mas...

- Se é isso que quer ouvir, lá vai: o senhor é um bocado miserável.

- Miserável, eu?

- Se tivesse morrido deixava cá uma fortuna que dava para comprar uns milhões de fatos, não de três mil dólares mas de duzentos mil dólares e está a regatear um fato. Veja lá se isto tem cabimento?!

Daniel engoliu em seco, e disse num sussurro:

- Não gosto de deitar dinheiro fora.

CONT 2

Coloque a máscara. Evita a gripe e previne o Covid.

 

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C.S

publicado por regalias às 08:07
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