Quinta-feira, 18 de Abril de 2019

Ricardo Chibanga:o touro nobre não ataca pelas costas

Fui surpreendido com o desaparecimento de Ricardo Chibanga. A última vez que nos encontrámos foi na Golegã há sete ou oito anos.

Continuava o mesmo Chibanga que eu tinha conhecido uns cinquenta anos antes:

Calmo, pensando bem o peso das palavras como se estivesse sempre desconfiado com elas. Ficava contente quando nos encontrávamos.

Normalmente se o sabia a tourear e podia assistir nunca faltava. No final da festa ia dar-lhe um abraço e elogiá-lo pela emoção que colocava no espetáculo.

Conheci o Chibanga através de uma amiga, Cesina Ovelha, irmã de um aficionado de toiros e de farras, homem bem-disposto, o Alfredo Ovelha, que era muito amigo do toureiro Manuel dos Santos e o aconselhara a dar a mão ao rapaz.

A Cesina Ovelha foi minha colega no SNI, era chefe da minha secção e uma mulher inteligentíssima. Parecia ter na cabeça, e tinha, toda a estrutura do Secretariado Nacional da Informação e de todas as Direções e secções daquela casa desde a Contabilidade, ao Verde-Gaio e à Direção de Turismo onde estava um homem, extremamente cativante, o Engenheiro Álvaro Roquette que não prescindia do apoio da Cesina para que, naquela enorme e bem organizada casa, nada falhasse.

Aprendi imenso com a Cesina. Sempre gostei de ali trabalhar. A camaradagem era fabulosa e não me lembro de alguma vez, alguém ter fugido ao trabalho.

O Ricardo, como era tratado, com amizade, enquanto aprendia a dar os primeiros passos nos segredos da tauromaquia, ouvia mais do que falava.

Uns anos mais tarde, em Tomar, quando foi ver o estado da Praça, dias antes da lide, encontrámo-nos e almoçámos juntos; perguntei-lhe: tu não tens medo de te joelhares e virares as costas ao touro? Ele respondeu-me naturalmente:

- Tenho.

- E tu arriscas? Qual é o segredo?

- O senhor Ovelha, um dia em que eu estava na Golegã a treinar com um touro ainda pequeno caí, quis-me levantar, não consegui e fiquei de costas para o meu companheiro de brincadeira. Passado um pouco afastaram-no de mim com o capote e o senhor Ovelha disse-me: “apanhaste um susto”. Eu disse-lhe que sim e ele riu:

- Ó Ricardo, tenho-te observado a ti e aos touros que tens lidado, e estou convencido que eles gostam de ti porque tens a mesma cor que eles.

- Mas hoje fiquei de costas e este não investiu. Ele olhou para mim e, muito sério, respondeu-me:

- O touro quando é nobre nunca ataca pelas costas:

- Desde esse dia fiz várias experiências, de pé ou joelhado, sempre com um bocado de medo, mas acreditei na palavra do senhor Ovelha, que era muito brincalhão, mas em serviço não brincava.

- Eu lembrei-lhe: os irmãos Faias, célebres pegadores de toiros, em festas de caridade, pegam muitas vezes de costas. Chibanga sorriu e disse.

- O touro aí é um pouco diferente. Avança porque é chamado e encaixa sempre o homem entre os cornos, parece não o querer magoar.

Ao Chibanga, ao Ricardo, ao amigo que levava a vida muito a sério desejo que no campo imenso para onde os espíritos regressam, se divirta e os distraia entre céu, estrelas e nuvens até nos voltarmos a encontrar na imaginação e na amizade.

Um abraço Ricardo, feliz Páscoa.

 

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C.S

publicado por regalias às 06:28
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