Terça-feira, 7 de Abril de 2020

Em Portugal até os burros são inteligentes

Desde muito novo duvidei das minhas capacidades embora alcançasse sempre o que pretendia.

Naquele tempo a palavra burro era vulgar assim como as sovas dos pais e o incitamento aos professores, pelos progenitores para que lhes carregassem, que lhes arrancassem uma orelha se não soubessem a lição e outros gestos semelhantes próprios daquela época e em todo o mundo.

Mas o mundo evolui; hoje caiu-se no exagero contrário.

As lutas entre os rapazes eram frequentes, agora são bullying, e sempre sujeitas a processos disciplinares. No meu tempo também havia.

Eu fui um dos premiados. Num jogo renhido de futebol, no enorme espaço que fazia parte do Liceu Nuno Álvares, em Castelo Branco, dei uma canelada no meu saudoso amigo José Penha, natural de Alcaíns. Como tocasse a campainha, largámos o futebol e corremos para as aulas. Ao subir as escadas para o primeiro andar.o Zé Penha, atrás de mim, não parava de me ameaçar. Farto de o ouvir, voltei-me e dei-lhe um pontapé; começou a chorar. Andávamos no primeiro ano. Assim entrou na aula. O cónego João, que era bom homem, mas fraca figura, perguntou-lhe: ah, menino porque choras? E a miudagem em coro: foi o C.S que lhe deu um pontapé.

Vais ao senhor Reitor. Ele nunca tinha levado ninguém à temível justiça do Reitor.

Sérvulo Correia tinha fama de ser uma fera.

O Cónego ao ver o Reitor, com grande subserviência disse:

Este menino, o Zé Penha, estava a chorar como uma Madalena arrependida.

- Pode-se ir embora, disse-lhe, secamente, o Reitor. Voltando-se para o Penha: diz lá o que aconteceu. O Penha começou a fazer história; quis interrompê-lo. Sérvulo Correia mandou-me calar e mandou o Zé para a aula seguinte. Sérvulo Correia olhou-me. Tenho de te castigar. Vou dar-te os castigos. Escolhe.

Primeiro, um dia de suspensão das aulas; segundo, um par de bofetadas; terceiro, oito dias à porta da Reitoria, durante os intervalos.

- Oito dias à porta da Reitoria, senhor Reitor.

- Começas amanhã e não voltes a dar pontapés aos teus colegas.

A Reitoria ficava junto do vestiário das alunas dos últimos anos. Quando passavam por mim e o Reitor não estava no cubículo, paravam, davam-me palmadinhas nas faces e nas pernas e quase sempre um beijo.

Eu já começava a espigar. Via-me no paraíso. Passou a primeira semana, passou a segunda, ia no final da terceira, quando o Reitor reparou em mim.

- Que estás aqui a fazer?

- Com ar inocente, respondi num sussurro:

- Estou de castigo, senhor Reitor.

- Ponha-se a mexer, seu malandreco! Pelo rabo do olho vi o olhar feliz do Reitor; ao fundo, as miúdas entre os cabides do vestiário, faziam-me adeus.

Nesse ano cresci quase um palmo, as miúdas nunca mais me saíram da cabeça. Pedi desculpa ao Zé Penha, e paguei-lhe um pirolito, como agradecimento por ter ficado naquele paraíso que tantas vezes me fez perder a cabeça e preferir os romances e as novelas do que os livros de estudo.

Desculpe. Comecei pelos burros inteligentes e nunca mais me explico.

Estes acidentes fazem que muitos pensem que os portugueses são burros. Não é verdade.

Depois de dar muitas voltas na cama decidi fazer-me à estrada, entrei Europa fora, desisti de toda e qualquer riqueza e decidi estudar o ser humano. Assim fiz. Verifiquei que os portugueses não eram menos inteligentes do que os outros povos. Cheguei ainda há conclusão que a maioria dos portugueses prefere o ser (compreender a vida, saborear a vida) ao ter (encher-se de dinheiro).

Quando comecei a dar aulas tive alunos a quem ensinava para fazerem o segundo ano; ou quinto; ou o sétimo; anos terminais, antes do 25 de Abril.

Depois os alunos, com mais de dezoito anos e queriam fazer só o segundo, fizessem o segundo e o quinto-

A seguir convenci alguns alunos a fazer os sete anos do Liceu, em dois anos.

Como era possível eu ter falhado, quando jovem? Afinal tudo é fácil; basta atenção e vontade.

Há um ano licenciou-se um aluno impossível. através do SKYPE, incitei.o a estudar. Em 4 anos, ultrapassou o 12º ano e os três anos do Politécnico de Portalegre, tendo-se licenciado em Serviço Social.

Não há burros em Portugal.

Quando nascemos todos trazemos a semente da inteligência, só é necessário que alguém a desperte.

Salazar compreendeu perfeitamente o povo. A situação calamitosa em que se encontrava, não o desmoralizou. Teve a coragem de convencer os Militares em Abril de 1928, com o País de rastos e sem quaisquer soluções à vista, com a frase “Sei muito bem o que quero e para onde vou”

Costa e Centeno também não podem ter medo do tempo em que nos encontramos, e aqueles para quem é mais fácil falar do que fazer. Portugal têm dez milhões que só precisam acreditar, em quem os Governa, para atingirem os objetivos em que todos acreditam: firmeza, coragem, trabalho e honestidade.

 

Anterior “Afaste-se do Corona, mas não lhe mostre medo”

C.S

publicado por regalias às 07:50
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.posts recentes

. O que faz vacilar o Homem...

. Democracia, oportunistas,...

. Conversa de corda e propa...

. Jovens mais felizes e mai...

. Trump se for eleito ofere...

. Obama, Sarkozy, Cameron, ...

. Locutores era o tema, mas...

. Salazar acabou com a Dita...

. O tempo da educação muscu...

. A rotunda Ana Gomes e o A...

.arquivos

. Junho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds