Terça-feira, 12 de Maio de 2020

Lagarta elegante, vestida de verde brilhante, dança

Nos tempos de poupança, a crise chega a todos.

Na minha varanda tenho uma horta com uma sementeira de espinafres. Em 70 centímetros eles crescem com Sol, Chuva, Vento (os deuses do tempo) e umas regas quando sinto que chamam por mim. Se têm o cabelo comprido, agradecem que lhes faça a poda. Misturo com ovos mexidos, alho, malagueta, um copito de vinho tinto, pão e um café. Fico pronto para atacar as letras e outros ofícios de pensamento ou manuais.

As sementes dos espinafres foram ali colocadas por uma jovem que ensinava a ler. Tem 85 anos. Mulher inteligente, muito trabalhadora, mas muito preguiçosa na leitura e na escrita. Um dia disse-me que não valia a pena aprender a ler,. Nunca mais a deixei amanhar o meu latifúndio.

Ela é muito engraçada. Conta-me a vida e as canseiras. Mesmo sem saber ler venceu a vida, criou e educou os filhos.

Trato-a por Condessa. O marido chamava-se Conde. Quando nos encontramos nas lojas e lhe dou os bons dias ou as boas tardes e a trato por Condessa, as pessoas olham-na admiradas. Ela não se desmancha e diz; “vale mais o título do que a propriedade.”

Damo-nos muito bem. Ela gosta de falar do passado e das saudades daquele tempo em que as raparigas trabalhavam nos campos e riam de contentamento. Guardamos sempre uma distância de seis ou sete metros. Quem passa na rua pode seguir a ladainha dos dois púlpitos. A sua varanda está por baixo e à esquerda da minha.

Ontem foi dia de poda. Enchi uma tigela com as folhas de espinafres, cobri-a de água e borrifei-os com vinagre. Agarrei-me ao vício. Quando fui preparar o almoço, escorri a água avinagrada. Ao colocar nova água, vejo deliciado uma lagarta de um verde claro, lindíssimo, com umas pintas, tal como as lantejoulas que as jovens colocam nas roupas. Em requebros femininos, coleava o corpo, de cinco ou seis centímetros de comprimentos, e cintura, da cabeça ao rabito, com um máximo de três milímetros.  Equilibrada no apêndice traseiro e no rebordo da tigela ela não parava de se contorcer. Olhei-a durante uns sete ou oito minutos. Estava fascinado. Ela não parava de colear nem saía daquele sítio. Resolvi levá-la para o jardim que está em frente da casa. Agarrei num frasco pequeno e, com a casca fina de uma cenoura, empurrei-a, com todo o cuidado, para dentro do recipiente. Não gostou. Colocou-se no rebordo do frasco e gritou-me: “por favor não me leves!” Compreendi. Com muito cuidado fui até à caixa dos espinafres onde encostei o frasco, Ela beijou duas folhas, escolheu uma e meteu-se floresta dentro.

Fiquei a olhar o matagal, onde nem uma folha bulia. Passados uns bons minutos, a lagarta, feliz como uma ressuscitada, escolheu uma das folhas, e depois de colear como se estivesse a espreguiçar-se começou a dança do ventre, mais fabulosa que alguma vez me foi possível observar no LIDO, em Paris.

Quando acabou, ergueu-se na sua elegância e desapareceu sorridente por entre as folhas de seda.

Obrigado, Criador dos Mistérios da Vida, por mais esta lição de simplicidade e biodiversidade.

 

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C.S

publicado por regalias às 06:15
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