Quarta-feira, 2 de Setembro de 2020

Os estranhos poderes do ser humano V

Nos meses em que estudei aquele homem, para saber o que tinha de especial verifiquei que a média das pessoas que o procuravam era 13.

Para os contactar, depois da visita, usei sempre uma pergunta muito simples. “Ainda está com mais alguém?”.

Quando perto do meio dia, o sabia sem ninguém, ia até à horta ligada à casa. Fazia-me encontrado e convidava-o para almoçar no Sabugal. A conversa rodava livre. Ele comia, normalmente, carne de porco.

No terceiro mês conheci o escritor Vergílio Ferreira que tinha sido colega do padre Miguel, no seminário. A alegria de um e outro era tão clara que todas as vezes que Vergílio Ferreira o ia visitar, almoçávamos os três.

Uma das vezes em que tivemos que esperar, Vergílio disse-me: “você devia escrever sobre o Zé. Eu já pensei fazê-lo, mas não tenho coragem. Não suporto o ridículo, o gozo dos que vivem a vida sem a pensar."

Confessei-lhe que estava ali para perceber os factos. Contei-lhe o que me motivara a largar tudo e estar na região.

Antes de sair da Assembleia da República tinha fundado “A Província”, semanário do País real, para ter acesso, com mais facilidade às pessoas e aos serviços públicos, sempre com a ideia de resolver o problema da pobreza, que contínuo a pensar possível.

Depois da conversa com Vergílio Ferreira comecei a escrever no Jornal sobre factos acontecidos no Meimão. De repente, a pequena aldeia transbordava de gente e os autocarros eram às dezenas.

As pessoas sentiam-se bem no lugar. Com o decorrer do tempo, os casos extraordinários aconteciam com relativa facilidade.

Mas as mulheres de Meimão recusavam-se a vender livros. Não acreditavam no padre. A intriga e a inveja fazia-as rejeitar a percentagem que receberiam. Até que decidi que, pelo menos uma pessoa ali vendesse livros. Lá a convenci. Não queria ficar com mais de cinco livros.

- “Isso, ninguém compra.” - Eu acabei por lhe deixar 50. No dia seguinte, à tarde, estava a pedir mais.

Os meses passavam. Como tinha outras atividades, nem sempre ali estava.

Um dia, a mulher dos livros pediu 200 livros. Eu próprio fui lá com uma carrinha levar 500. Quando cheguei, ela não estava. Apareceu o marido. Perguntei por ela. Disse que não estava. Insisti, e tanto insisti que ele respondeu: “Ela é maluca”. É maluca, mas está onde? “Está na escola”, então vamos à escola buscá-la. Pensei que fosse lá fazer limpeza. Ela estava a aprender a ler, aos sessenta e tal anos, para saber o que o livro dizia. Muitas pessoas compravam livros e passavam horas a soletrar uma página.

As curas, a melhoria de vida dos desesperados e dos habitantes da terra era evidente. Vendiam tudo o que havia para vender. As pessoas ficavam boas das doenças, uma mulher de Pínzio tinha sido curada de um cancro, uma rapariga muitíssimo gaga ficara a falar normalmente e havia os factos impossíveis e que nunca contei em livros, apesar de haver dezenas de pessoas como testemunhas do que tinha acontecido. Factos que ultrapassam todos os limites da compreensão humana. Conto um, passado diretamente comigo.

Um empresário de um restaurante, muito especial e muito caro de Lisboa foi ao padre Miguel. Nesse dia a aldeia estava cheia como um ovo. Ele falou com o padre e quando regressou ao carro, que estava a largos metros de distância, viu aterrorizado que tinha a caríssima máquina de portas trancadas e as chaves lá dentro. Pediu ajuda. Ninguém conseguiu abrir as portas. Ele lembrou-se de voltar ao Padre Miguel. Era impossível ultrapassar a multidão; até que alguém lhe sugeriu para ir comigo, a única maneira de toda a gente abrir caminho. Sabiam da amizade que o padre me dedicava. Depois de me encontrarem falou-me no problema. Também experimentei a minha sorte; nada. Fui com ele ao padre que estava rodeado de gente. Ainda estava a uns metros dele e já ele estava a mandar desviar as pessoas para saber o que eu queria. Expliquei-lhe o problema. Ele diz-me: “volte ao carro, mas tem de ser o senhor a fazer o que digo: puxe a porta do lado do volante do carro. Ela está aberta.”

Não podia discutir. Tinha de acreditar. Eu já tinha feito essa tentativa. Quando cheguei ao carro e puxei, a porta abriu imediatamente perante o espanto dos muitos que ali estavam.

Aqui levantou-se mais um problema para a minha cabeça. Já tinha a certeza que o ser humano interage um com o outro, mas entre o ser humano e seres inanimados como é possível?

 

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C.S

publicado por regalias às 05:11
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