Sexta-feira, 15 de Outubro de 2021

Livro à procuea de autor, 2

- Arranje-me um fato... Qualquer coisa que possa vestir.

- Infelizmente sou coveiro. Não sou alfaiate nem tenho um pronto-a-vestir.

- Lá está você, outra vez, com o infelizmente. Não vê o estado em que me encontro? Arranje-me um fato.

- Só se for desenterrar algum...

- Deixe-se de graças!

- Como queira, Sr. Daniel. Os passeios no cemitério são à borla, os fatos...pagam-se.

- Quem lhe disse que ficava a dever? Arranje o fato e deixe-se de brincar com assuntos sérios

- Sérios e bem sérios – Respondeu Samarra descontraidamente.

- Você tem mais jeito para o teatro do que para coveiro.

- Não é o que os mortos dizem.

- Dizem?

- Ainda nenhum reclamou. O senhor foi o primeiro.

- Eu não estou morto... ou estou?

Samarra riu com gosto.

- Felizmente não.

- Você está a gozar comigo e eu não sei porque lhe dou conversa.

- Nesse estado... e dentro do cemitério...

- Arranje-me o fato e tenha tento na língua. Você assim não vai longe.

- Ai vou, vou. Morrer coveiro é que eu não morro.

- Com essa linguagem não vai muito longe.

- Eu sei que não vou morrer coveiro. Decidi que sou homem como os outros. Nem o senhor, nem ninguém me tira a esperança.

- Se sabe quem eu sou escusa de mostrar altivez.

Samarra mudou de tom.

- Desculpe... estou habituado a falar com os mortos... O senhor era mais um... a gente perde a reverência.

Afinal somos todos iguais ao nascer e ao morrer. Eu de ver tanta gente importante levar com umas pazadas de terra nas trombas perdi o respeito a tanta cagança.

- Arranje-me um fato e não diga asneiras. Será recompensado.

- Tenho aí um que é coisa fina, o resto é tudo para gente como eu...

- Dê-me o mais limpo.

- Dê, é maneira de falar...

Samarra foi à desconjuntada cómoda.

- Aqui tem.

Daniel apalpou o pano.

- Boa fazenda, bom corte. Bom gosto. Feito no meu próprio alfaiate...não me diga que é o meu fato?

- Experimente-o.

- Parece feito por medida. Até a camisa é o meu número. Como é que um fato do “Lourenço & Santos” veio aqui parar?

- Bem, sabe, isto é...

- Diga lá, eu não lhe fico a dever o fato. Já vi que não é o meu.

- E paga em dólares?

- Em dólares? Você está doido! Em dólares? Onde é que já se viu isso? Estamos na Europa, homem! Euros, libras, francos! Agora em dólares!

- Pois é. Tem de ser em dólares.

- Posso saber porquê?

- Pode. Ando a juntar o meu pé-de-meia para emigrar. A minha mulher diz que os dólares é que valem, o resto é papel pintado. Eles fazem quantos querem e todos acreditam na máquina.

- Se a ideia é da sua mulher não ganho nada em discutir. E em quanto me fica isto?

- É barato. São três mil.

- Três mil escudos?

- Isso foi no século passado. Estamos na era do Euro, senhor Daniel, mas eu, antes de saber para onde vai o euro, prefiro dólares. Três mil dólares, senhor Daniel. Três mil escudos, convertidos em euros, já nem davam para umas cuecas quanto mais para um fato completo; camisa, gravata, cuecas, meias de seda e sapatos.

- Isto é um roubo!

- Quanto mais ricos, mais sovinas.

- O que é que você disse?

- Nada, nada. Eu sou um brutinho, não sei falar direito.

- Espere lá. Trezentos dólares.

- Três mil e é a última palavra. Com ele até pareço um doutor.

- Explorador é aquilo que você é.

- Eu não quero que fique mal impressionado. A gente nunca sabe se algum dia precisa… O senhor é homem de cacau, mas...

- Diga! Diga lá ...

- Não vale a pena. A minha mulher é que tem razão.

- E o que diz a sua mulher?

- Que eu falo demais. Que sou uma besta.

- Exijo que me diga o que é o mas...

- Se é isso que quer ouvir, lá vai: o senhor é um bocado miserável.

- Miserável, eu?

- Se tivesse morrido deixava cá uma fortuna que dava para comprar uns milhões de fatos, não de três mil dólares mas de duzentos mil dólares e está a regatear um fato. Veja lá se isto tem cabimento?!

Daniel engoliu em seco, e disse num sussurro:

- Não gosto de deitar dinheiro fora.

CONT 2

Coloque a máscara. Evita a gripe e previne o Covid.

 

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C.S

publicado por regalias às 08:07
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