Sábado, 16 de Outubro de 2021

Livro à procuea de autor, 3

- Se quiser empresto-lhe o meu fato de trabalho. Não paga nada. É de graça. Não quero ver ninguém chorar dinheiro. Sou pobre, mas não sou indigente. Vou-lhe emprestar o fato.

- Não quero! Eu fico com o fato, mas continuo a pensar que isto é um roubo.

- Pense o que quiser. Pode escolher entre dois fatos. Um é de graça, o outro pouco representa para uma fortuna como a sua. Mas se a vontade é poupar, aqui tem o fato que visto, para carregar aqueles que não podem roubar a vida...

- Não são os três mil dólares que me preocupam. Aquilo que me chateia é ser roubado descaradamente.

- Eu não lhe roubo nada. Até lhe dou a possibilidade de uma escolha.

- Que escolha? O seu fato cheira à morte! Quase vomito só de o sentir.

- Cheiros. Ainda tenho outra solução.

- Qual é?

- Posso chamar-lhe o motorista.

- Nem pensar! Eu fico com o fato pelos três mil dólares.

- E paga-os?

- Você ofende-me!

- Desculpe. Tenho levado tantos pontapés que às vezes esqueço-me de que devo ter reverência. Foi o instinto. Saiu-me. Já não é a primeira vez que, quando precisam oferecem tudo, mas quando se apanham servidos nunca mais se lembram das promessas.

- Como é que pensa que arranjei a fortuna? Acha que foi a pagar tudo quanto me pedem? O negócio está feito. Não se fala mais no assunto.

- Morra quem se negue.

Daniel preparava-se para sair, mas voltou para junto do coveiro.

- Você não me chegou a dizer a quem pertence este fato, que foi comprado numa das melhores e mais elegantes lojas de Lisboa.

- A marca está lá.

- Devia ter pertencido a alguém muito rico. De quem era?

- Se quer saber, paga mais uma quinhenta.

- Ó Samarra, você é um escroque!

- Se não o tivesse recolhido, a estas horas estava a empacotá-lo: todo o seu dinheirão não lhe serviria para nada. Tenho a certeza que os filhos se encarregariam de o desbaratar bem mais rápido que o senhor pensa e ainda continua a chorar umas notas de alguns dólares.

- Devo-lhe então três mil e quinhentos dólares?

- Assim é que é falar. O senhor não fica mais pobre e ajuda o Samarra, a Clementina, a Mariana e o Tiago a irem para as Américas.

- De quem era o fato?

- Do senhor Octávio.

- Do Octávio! Que me havia de acontecer! E você guardou este fato...

- Durante muito tempo e sem naftalina. O cheiro suave atrai as pessoas e afasta as traças.

- Você  é que me saiu uma boa traça.

- Ando a poupar há anos. O senhor ganha num dia o que eu nunca ganharia em toda a vida. O meu dia de sorte tinha de chegar e chegou. É preciso saber esperar.

Quer um conselho, senhor Daniel?

- Diga lá! Já disse tantos disparates, mais um não fará grande diferença.

- Nunca tire a esperança a ninguém. Na essência somos todos iguais. Só que uns desistem logo à partida, mas há outros que podem nascer no mais miserável dos lamaçais e nunca se dão por vencidos. Não é justo que lhes tirem a esperança. E o senhor não é tão mau como parece. É vício.

- Vício?

- De explorar, de guardar, de ter mais e mais sem necessidade.

- Você não sabe o que é ter milhares de empregados e garantir-lhes o salário?

- As empresas são fontes…

- E quando secam. Quem paga aos operários?

- Homens como o senhor nunca deixam que isso aconteça.

- Não esperava encontrar um coveiro especialista em economia e de raciocínio rápido.

- Os nossos discretos companheiros ensinam aqueles que aprendem na escola da vida.

- Os mortos?

- Os livros.

Daniel olhou-o com simpatia.

- Quem lhe deu o fato?

- Bem, sabe, isto é...

- Deixe-se de evasivas. Você roubou o fato.

- Bem...a "minha" viu o fato e disse-me que era um fato daqueles que dava sorte...

- Desenterrou o Octávio e roubou-lho.

- Não foi bem assim.

- Não foi bem assim, como?! O fato estava no corpo do Octávio.

- Estar, estava, mas eu desenterrei o senhor Octávio para ver se ele se encontrava bem, assim como fiz com o senhor.

- Eu não estava enterrado!

- Esteve quase. Havia cotão por todo o lado. Ficamos por aqui.

- Não, não! Acabe o que estava a dizer sobre o Octávio.

- Eu tive a impressão que o senhor Octávio gemia dentro da campa. A terra tinha um aspeto esquisito; estava enrugada. Eu que me gabo de fazer obra asseada reparei que a terra se encontrava mexida. Ao cair da noite voltei aqui. Continuei a ouvir qualquer coisa que ainda hoje, quando me lembro, sinto um arrepio. Aquilo já não parecia de gente, mas ouvia-se. Enchi-me de coragem, agarrei na pá e abri a cova. Destapei, com muito cuidado, a tampa da urna. Mal empregada, valia um dinheirão. Só a tampa, em pau-santo, dava para eu ir para as Américas.

- Ó, homem, despache-se. Você não teve medo?

- Medo? Depois de sentir o primeiro arrepio pensei: se o homem está morto não me faz mal, e, se estiver vivo, ainda me agradece. Aí é que eu encontrava o meu pote de libras. Era a minha sorte grande.

- Mas o Octávio estava morto.

- Estar, estava. Mas não estava muito contente.

- Não estava muito contente?

- Ele devia ter tentado voltar-se.

- Depois de morto?

- Talvez. Garanto-lhe: ele não gostou. A cara era de quem não tinha achado graça por estar naquela situação.

- Você não diga isso a ninguém. Agora começo a lembrar-me do fato.

- Vai ver que o vai sentir. Ele ainda lhe vai dizer qualquer coisa.

- Sentir como?

- Esse fato era o dele. Teve-o vestido pelo menos vinte e quatro horas.

- Esteja calado. Não me lembre horrores.

- É o meu fato de sorte...o senhor leva-o... vai ver…ainda nos havemos de entender.

- Consigo?... Nem morto! E negócios... Nunca mais! Aviso-o ainda de uma coisa; não se esqueça da pessoa para quem está a falar.

CONT

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C.S

publicado por regalias às 08:04
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