Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014

No reino de Sua Majestade, os canteiros de Alcains

Durante largas décadas os mestres canteiros de Alcains nunca tiveram mãos a medir. Eles também nunca viraram a cara ao trabalho.

Com o maço e o cinzel gravaram na pedra dura tudo quanto o desenhador pretendia.

Desde a solidez dos edifícios onde cada pedra fica assente como se fosse um grande e homogéneo bloco, até a gravações ou figuras que compõem os edifícios monumentais, tudo os mestres canteiros esculpem com a naturalidade de quem sabe acariciar as pedras e o afago as molde.

O meu saudoso amigo José Penha que era de Alcains e que por causa dele fui pela primeira vez ao feroz, mas perspicaz Reitor Sérvulo Correia, no Liceu Nun´Alvares de Castelo Branco, dizia-me que os canteiros de Alcains eram descendentes do estatuário do século XVII, do padre António Vieira:

“Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem – primeiro, membro a membro, depois feição por feição, até a mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.”

O Zé Penha era filho do Professor Primário, que obrigava os alunos a decorar parte de textos que sabia essenciais para a formação dos alunos. O Zé declamava sempre o texto para ver se me irritava, eu fingia e perdoei a ida ao Reitor e os oito dias à porta da Reitoria de castigo que alarguei para quinze. Ali passavam as alunas que me faziam festas e beijavam.

Os mestres canteiros nunca tiveram mãos a medir. Construíram igrejas, casas senhoriais, embelezaram pórticos, fizeram baixos-relevos.

Alcains sendo uma freguesia tornou-se um grande polo industrial e monumental. Só o 25 de Abril abrandou o ritmo. Produziu ainda um Presidente da República cuja face parece talhada do granito da região.

Os Alcainenses são gente altamente trabalhadora, competente e honesta. Conto vários amigos. A D. Diamantina (Tina) suspira de saudade e lembra como aprendeu costura e se tornou uma verdadeira profissional na Alfaiataria José Marques Rafael que deu origem às confeções Dielmar.

O pai de D. Tina, como milhares de Alcainenses foi canteiro. Na sepultura, como brasão e motivo de orgulho lá estão esculpidos o maço e o cinzel.

O marido, o Sr. Avelino Sousa depois de ainda muito jovem dar água aos mestres canteiros empregou-se nos Caminhos-de-Ferro portugueses, de que está reformado.

Tenho a certeza que o reino de Sua Majestade Britânica encontrará em Alcains os melhores e os mais competentes canteiros do mundo.

C.S

publicado por regalias às 06:20
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