Segunda-feira, 31 de Agosto de 2020

Os estranhos poderes do ser humano III

O ser humano tem na verdade poderes, que muitos desconhecem e outros se recusam a acreditar.

Para aquietar os mais apressados vamos ver como tudo começou.

Vivia entre a Escola, a Presidência de duas Associações: a Nabantina e o Clube Thomarense, e a Direção do Jornal “O Templário” quando se dá o 25 de Abril e sou insistentemente convidado para integrar as listas do PS, PPD e CDS para a eleição da Assembleia Constituinte. Recusei todas as investidas. O meu pensamento além do trabalho suplementar que sempre fiz com prazer e sem qualquer cansaço era escrever uns livros e saber como resolver o problema da pobreza, não só em Portugal como em todo o mundo. Esta pandemia foi sempre a causa das minhas tristezas, embora pareça um tipo alegre.

Foi pois na segunda investida, para as Legislativas, que cedi contrariado. Como o CDS, não tinha conseguido nenhum Deputado nas primeiras eleições aceitei este, mas avisei que podia causar problemas ao Partido. Conheço a minha maneira de ser. No último dia e já de madrugada aceitei concorrer em segundo lugar, mais para encher lista do que para ganhar.

O problema é que não resisto a desafios e, embora as hipóteses de ganhar fossem limitadas, fui eleito e abre-se a porta do título supra mencionado.

Como?

Na Assembleia da República o meu trabalho era diminuto. Éramos 42 Deputados, mas os únicos que conduziam o barco era o Freitas, o Adelino, o Basílio, o Rui Pena, o Narana Coissoró, o João Porto, o Nuno Abecasis, o Lucas Pires. O resto eram todos simpáticos verbos de encher; de levantar e baixar nas votações. Aquilo enervava-me e cansava-me imenso.

Para arranjar qualquer coisa para fazer, não ganhar vícios e ansiedade comecei a sair, País fora, todos os fins de semana, para saber as dificuldades do povo e as carências das terras.

Foi numa dessas viagens que se deu o primeiro clique.

Quando entrei na aldeia de Meimão e ainda estava a observar as casas e os poucos habitantes que por ali se encontravam, apareceu-me o padre da terra. Fora avisado que eu estava ali e ele veio, bem disposto convidar-me para beber um copo e comer uma chouriça, assada na brasa.

Aceitei e faço já o regresso, para não gastar em pormenores aquilo a que estamos ajuramentados.

Ao despedir-me do padre, pediu-me um abraço. Entrei no carro e o padre diz-me: “senhor Deputado saia lá”. Saí. “Dê-me cá outro abraço”. Obedeci. “Aperte-me bem”. As mulheres da aldeia, punham as mãos na cara e riam. Eu a vê-las e o padre a dizer “Aperte mais”. Eu fazia-lhe a vontade. No final diz-me com ar estranho: agora entrega este abraço ao Professor Freitas do Amaral e diz-lhe que vai para o Governo no dia 22 ou 23 de Janeiro.

Como, durante o petisco e a conversa, o padre me pareceu tudo, menos do que parvo, esqueci o assunto para não me complicar as ideias.

Mas na terça feira seguinte, dia de Assembleia, ao entrar na sala do CDS encontro o Adelino Amaro da Costa, encostado à secretária, o Basílio Horta e o Malhó da Fonseca, cada um de seu lado, em plena cavaqueira.

Dirigi-me a eles: meus amigos, acabou o paleio. Temos trabalho redobrado, vamos entrar para Governo.

Era impossível, todos insultavam o CDS.

O Adelino, olhou-me muito sério: “C.S, você sente-se bem?”

O Basílio mimoseou-me imediatamente, com uma série de adjetivos. O Malhó ria. O Adelino voltou à estacada. “Por que diz isso?”

- Porque o padre Miguel o garantiu.

- “Quem é o padre Miguel?”

Lá expliquei o pouco que sabia sobre o inventor do impossível concretizado, seis ou sete meses antes do CDS ter entrado para o II Governo Constitucional.

Nunca mais voltei a falar no assunto. Eles também não. Mas disse ao Diogo, alguns dias depois da conversa com a trempe falante, quem lhe tinha enviado o abraço e que ia para o Governo em Janeiro. Ele nem sorriu, nem respondeu. Não dava confiança à arraia miúda.

 

Anterior “Os estranhos poderes do ser humano”

C.S

publicado por regalias às 05:19
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1 comentário:
De Sandra a 31 de Agosto de 2020 às 09:35
Fantástico! Há coisas que não se explicam e esta entrada do CDS para o II Governo Constitucional é a prova. Adorei a sua visão humana e correta sobre a política, o "encher listas" ou lugares na Assembleia; tal como o investir em conhecer as necessidades do povo. Espero que tenha mexido deveras com o partido! Bravo!


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