Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2018

Os velhos e o esquecimento

Um dos grandes problemas dos velhos é esquecerem-se de tudo, menos do passado.

O passado, o bem e o mal nunca esquece. O dia, depois dos 80 anos, é um turbilhão de esquecimentos.

A maneira mais simples e menos preocupante de lidar com essas fugas mentais é não lhes dar importância.

Esqueceu agora, lembra depois. Pensa um pouco, não se aflige, senão isso torna-se doença e há muita gente que não lhe resiste.

Quando o assunto é muito importante nada melhor que o escrever pelos locais da casa por onde vai passar.

Ontem um dos meus netos, rapaz inteligente, trabalhador, fez anos. Para não me esquecer, além de ter colocado na agenda o seu nome, agarrei um daqueles blocos de notas amarelos Post-it, que as lojas chinesas vendem por poucos cêntimos e coloquei no ecrã do computador, no frigorífico, na mesa da sala de jantar, na porta de saída. Um exagero. Mas não me esqueci. Também não me devia esquecer porque além de ser meu neto, admiro a sua urbanidade, a sua frontalidade e a boa disposição. Mas teria de estar a pensar nele constantemente para não esquecer a hora em que o podia encontrar mais facilmente.

Cantei-lhe os parabém através do telemóvel e não me esqueci da letra que todos aprendemos em miúdos. Acrescento-lhe sempre mais umas frases de admiração e incentivo para gozar e respeitar a vida.

No entanto, no dia-a-dia tenho aí uns bons 16 ou 17 esquecimentos. Uns que me aborrecem e matuto neles, às vezes mais de dez minutos sem sucesso. Outras vezes vou de um compartimento para o seguinte e quando chego a meio já não sei o que vou fazer. Gozo comigo. Digo para os meus botões: estás velho. Olho para todos os lados e arranjo algo para agarrar e me contentar. Se nem isso encontro. Rio-me e trato de escrever ou ler, sempre com a ideia de aprender mais.

E o nome das coisas com que lidamos todos os dias, ou o nome dos amigos? Ficamos preocupados? Não podemos. Pensamos, pensamos e se não encontramos, no dia seguinte tudo volta ao normal e à recordação.

Pois é, isto de ser velho é muito interessante. Felizmente que podemos recordar as dificuldades do passado, ultrapassadas depois de alguns anos; a alegria, as festas, os teatros e os cinemas cheios. É uma felicidade que desejamos para os dias de hoje, para ficarmos mais sossegados pelos filhos, netos e bisnetos.

 

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C.S

publicado por regalias às 07:30
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