Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015

Puxa pela cabeça dizia o prof. José Manuel Landeiro

Desde que me lembro, Portugal foi sempre um País democrático, tanto apanhava o pobre como o rico.

Recordo-me que no fim do segundo mês de ter ido para a escola primária, hoje, primeiro ciclo do Ensino Básico, que eu adorava por aprender a ler bem e jogar à bola nos intervalos. Um dia o José Rego, com um chuto meteu um golo numa vidraça da escola. Parámos imediatamente e ficámos a olhar uns para os outros a prever borrasca da grossa. Bem dito, bem feito, passados uns minutos apareceu o Professor José Manuel Landeiro, com a bola na mão e muito nervoso.

Era ótimo professor, mas não se inibia de castigar à mínima falta, depois de, logo no início do ano ter definido as regras. Uma delas era não jogar à bola daquele lado onde tinha sucedido o desastre.

Encolhidos, e ao lado uns dos outros, ouvíamos o sermão em voz mais alta do que o normal. Ele foi andando à nossa frente como se quisesse pelo fácies descobrir o canhestro.

Como a nossa cara de anjos chineses não lhe permitisse descortinar o vilão, gritou: quem fez isto? !!!!

Fez-se um silêncio tal, que até os pássaros se calaram.

O Zé Manel, como a miudagem se referia a ele, quando não estava presente, voltou a gritar, agora mais enervado: quem fez isto?!!! E apontava para o estilhaçado vidro da janela.

O Zé Rego estava à minha esquerda, o professor mesmo à nossa frente. Ao lado do Zé estava o Gonçalves e o Cândido. Ao meu lado estava o Ginja. Quando todos olharam para o Zé Rego, eu disse foi este. O Zé Manel puxa o braço atrás e zás.

Mas o Zé Rego e o Gonçalves baixaram-se instintivamente e a chapada assentou-me em cheio na bochecha esquerda.

Por inacreditável que pareça, o professor, talvez devido ao seu estado exaltado, não reparou que eu tinha sido a vítima e regressou à sala de aula resmungando novas sevícias.

Os meus colegas, logo que viram que o justiceiro tinha desaparecido, riram a bom rir e fartaram-se de me gozar.

Esta punição inesperada teve um efeito fabuloso. Aprendi que nunca devia acusar ninguém, antes pelo contrário tornei-me um defensor feroz dos mais fracos e dos injustiçados.

Por outro lado comecei a admirar o Professor José Manuel Landeiro, que por qualquer razão, quando fazia uma pergunta, um pouco mais complicada, me deixava sempre para último e, quando eu hesitava dizia: puxa pela cabeça. Normalmente a frase destapava a ideia e eu respondia certo.

Bendita a Escola do Estado Novo que cimentou a amizade e a fraternidade e conseguiu tirar um povo paupérrimo da miséria até que o monstro da ignorância, da estupidez, da demagogia e da hipocrisia regressaram em força a este país, sacrificaram e humilharam o povo e aqui ficaram sem tempo definido para abalar.

C.S

publicado por regalias às 07:25
link do post | favorito
Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9


21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. Incompetência ou falta de...

. Isto não é um mundo de ge...

. Esplendor de Portugal atr...

. Catalunha é mais poderosa...

. No País dos loucos salvem...

. Profissionalismo, a admir...

. O ser humano comete erros...

. Não deixem morrer a exper...

. Direita e Esquerda domina...

. Aproveitem a ocasião: ins...

.arquivos

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds